quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Jovens começam a beber cada vez mais cedo no Brasil
Estudos apontam que a idade média de início do consumo é de 13 anos. E que na maioria dos casos o primeiro gole acontece em casa com a família...
http://strongmail.real.com/track?t=c&mid=156300&msgid=89500&did=1249003357&sn=1219706114&eid=fabiola.gonzaga@gmail.com&uid=52033&extra=&&&2001&&&http://www.uniad.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1562:os-jovens-comecam-a-beber-cada-vez-mais-cedo-no-brasil&catid=43:uniad-videos&Itemid=97
Material didático drogas e dependência química...
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
A vez do crack...
Definição e histórico
A cocaína é uma substância natural, extraída das folhas de uma planta que ocorre exclusivamente na América do Sul: a Erythroxylon coca, conhecida como coca ou epadú, este último nome dado pelos índios brasileiros. A cocaína pode chegar ao consumidor sob a forma de um sal, o cloridrato de cocaína, o "pó", "farinha", "neve", "branquinha", solúvel em água e, portanto, serve para ser aspirado ("cafungado"); dissolvido em água, para uso endovenoso ("pelos canos"); ou sob a forma de uma base, o crack, pouco solúvel em água mas que se volatiliza quando aquecida e, portanto, é fumada em "cachimbo".
Também sob a forma base, a merla (mela, mel ou melado) preparada de forma diferente do crack e que também é fumada. Enquanto o crack ganhou popularidade em São Paulo, Brasília foi a cidade vítima da merla. De fato, pesquisa recente mostra que mais de 50% dos usuários de drogas da nossa Capital fazem uso de merla e apenas 2% de crack.
Há ainda a pasta de coca, um produto grosseiro, obtido das primeiras fases de separação de cocaína das folhas da planta quando estas são tratadas com álcali, solvente orgânico como querosene ou gasolina e ácido sulfúrico. Essa pasta contém muitas impurezas tóxicas e é fumada em cigarros chamados "basukos".
Antes de se conhecer e isolar cocaína da planta, esta era muito usada sob forma de chá. Ainda hoje o chá é bastante comum em certos países como Peru e Bolívia, sendo que neste primeiro é permitido por lei, havendo até um órgão do Governo o "Instituto Peruano da Coca" que controla a qualidade das folhas vendidas no comércio. Este chá é até servido aos hóspedes nos hotéis. Acontece que sob a forma de chá, pouca cocaína é extraída das folhas; além do mais, ingere-se (toma-se pela boca) o tal chá, e pouca cocaína é absorvida pelos intestinos e ainda mais, ela já começa a ser metabolizada pelo sangue e, como vai ao fígado, é em boa medida destruída antes de chegar ao cérebro. Em outras palavras quando a planta é ingerida sob a forma de chá, muito pouca cocaína chega ao cérebro.
Todo mundo comenta que vivemos hoje uma epidemia de uso de cocaína, como se isto estivesse acontecendo pela primeira vez. Mesmo nos Estados Unidos onde sem dúvida houve uma explosão de uso nestes últimos anos, já houve fenômeno semelhante no passado. No Brasil também, há cerca de 60-70 anos, utilizou-se muita cocaína.
Efeitos no cérebro
Tanto o crack quanto a merla também são cocaína, portanto todos os efeitos provocados pela cocaína ocorrem com o crack e a merla. Porém, a via de uso dessas duas formas (via pulmonar, já que ambos são fumados) faz toda a diferença do crack e da merla com o "pó".
Assim que o crack e a merla são fumados alcançam o pulmão, que é um órgão intensivamente vascularizado e com grande superfície, levando a uma absorção instantânea. Através do pulmão, cai quase imediatamente na circulação cerebral chegando rapidamente ao cérebro. Com isto, pela via pulmonar o crack e a merla "encurtam" o caminho para chegar ao cérebro, aparecendo os efeitos da cocaína muito mais rápido do que outras vias. Em 10 a 15 segundos os primeiros efeitos já ocorrem, enquanto que os efeitos após cheirar o "pó" acontecem após 10 a 15 minutos e após a injeção, em 3 a 5 minutos. Essa característica faz do crack uma droga "poderosa" do ponto de vista do usuário, já que o prazer acontece quase que instantaneamente após uma "pipada".
Porém, a duração dos efeitos do crack é muito rápida. Em média duram em torno de 5 minutos; enquanto que, após injetar ou cheirar, em torno de 20 e 45 minutos, respectivamente. Essa pouca duração dos efeitos faz com que o usuário volte a utilizar a droga com mais freqüência que as outras vias (praticamente de 5 em 5 minutos) levando-o à dependência muito mais rapidamente que os usuários da cocaína por outras vias (nasal, endovenosa).
Logo após a "pipada", o usuário sente uma sensação de grande prazer, intensa euforia e poder. É tão agradável que, quando desaparece o efeito (e isso ocorre muito rápido, em 5 min), ele volta a usar a droga, fazendo isso inúmeras vezes até acabar todo o estoque que possui ou o dinheiro para consegui-lo. A essa compulsão para utilizar a droga repetidamente, dá-se o nome popular de "fissura" que é uma vontade incontrolável de sentir os efeitos de "prazer" provocados pela droga. A "fissura" no caso do crack e da merla é avassaladora, os efeitos da droga são muito rápidos e intensos.
Além desse "prazer" indescritível, que muitos comparam a um orgasmo, o crack e a merla também provocam um estado de excitação, hiperatividade, insônia, perda de sensação do cansaço, falta de apetite. Este último efeito é muito característico do usuário de crack e merla. Em menos de um mês ele perde muito peso (8 a 10 Kg) e num tempo um pouco maior de uso ele perde todas as noções básicas de higiene ficando com um aspecto deplorável. Por essas características os usuários de crack (craqueros) ou de merla são facilmente identificados.
Após o uso intenso e repetitivo, o usuário experimenta sensações muito desagradáveis como cansaço e intensa depressão.
Efeitos tóxicos
A tendência do usuário é aumentar a dose na tentativa de sentir efeitos mais intensos. Porém, essas quantidades maiores acabam por levá-lo ao comportamento violento, irritabilidade, tremores e atitudes bizarras devido ao aparecimento de paranóia (" nóia"). Esse efeito provoca um grande medo nos craqueros, que passam a vigiar o local onde estão usando a droga e passam a ter uma grande desconfiança uns dos outros o que acaba levando-os a situações extremas de agressividade. Eventualmente podem ter alucinações e delírios. A esse conjunto de sintomas dá-se o nome de "psicose cocaínica". Além desses sintomas descritos, o craquero e o usuário de merla perdem de forma muito marcante o interesse sexual.
Efeitos sobre outras partes do corpo
Os efeitos são os mesmos provocados pela cocaína utilizada por outras vias. Assim, o crack e a merla podem produzir um aumento das pupilas (midríase), afetando a visão que fica prejudicada, a chamada "visão borrada". Ainda pode provocar dor no peito, contrações musculares, convulsões e até coma. Mas é sobre o sistema cardiovascular que os efeitos são mais intensos. A pressão arterial pode elevar-se e o coração pode bater muito mais rapidamente (taquicardia). Em casos extremos chega a produzir uma parada do coração por fibrilação ventricular. A morte também pode ocorrer devido a diminuição de atividade de centros cerebrais que controlam a respiração.
O uso crônico da cocaína pode levar a uma degeneração irreversível dos músculos esqueléticos, chamada rabdomiólise.
Aspectos gerais
Ao contrário do que acontece com as anfetaminas (cujos efeitos são em parte semelhantes aos da cocaína), as pessoas que abusam da cocaína não relatam a necessidade de aumentar a dose para sentir os mesmos efeitos, ou seja, a cocaína praticamente não induztolerância. E não deve mesmo ser considerado tolerância o uso compulsivo, repetido de muitas doses tomadas em um curto espaço de tempo: na realidade as pessoas que assim procedem estão fazendo isso porque querem sentir muitas vezes, repetidamente, o mesmo efeito muito prazeroso, mas efêmero.
Não há também descrição convincente de uma síndrome de abstinência quando a pessoa pára de tomar cocaína abruptamente: elanão sente dores pelo corpo, cólicas, náuseas, etc. Às vezes, o que ocorre é essa pessoa ficar tomada de grande "fissura", tomar de novo, para sentir os efeitos agradáveis e não para diminuir ou abolir o sofrimento que ocorreria se realmente houvesse uma síndrome de abstinência.
Usuários de drogas injetáveis e AIDS
No Brasil, a cocaína é a droga mais utilizada pelos usuários de drogas injetáveis (UDI). Muitas destas pessoas compartilham agulhas e seringas, e se expõe ao contágio de várias doenças, entre elas as hepatites, a malária, a dengue e a AIDS. Esta prática, inclusive, é hoje o fator de risco mais importante para a transmissão do HIV. Segundo dados do "Projeto Brasil", estudo epidemiológico realizado entre 1995 e 1996 com 701 UDI, envolvendo vários centros do país, e coordenado pelo Instituto de Estudos e Pesquisas em AIDS de Santos (IEPAS), as taxas de prevalência de infecção pelo HIV entre usuários de drogas injetáveis chega a 71% em Itajaí, 64% em Santos e 51% em Salvador. O uso de drogas injetáveis está associado a cerca de 50% de todos os casos de AIDS nas regiões de São Paulo e Santa Catarina. No âmbito nacional, 21,3% dos casos de AIDS registrados até maio de 1997, referem-se a categoria de usuário de drogas injetáveis.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Drogas: caso de polícia ou de saúde?
A Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia busca alternativas para a questão das drogas que atualmente é embasada numa política de confrontação direta. O neurocientista Roberto Lent participou da primeira reunião da comissão, que contou também com a presença de outras ilustres personalidades. Da discussão conclui-se a necessidade de tratar a questão na perspectiva da saúde pública.
Segue trechos do artigo publicado na revista Ciência Hoje:
"O objetivo da comissão é rediscutir a questão das drogas que aflige o Brasil – e o mundo inteiro – numa nova perspectiva, que substitua a política ainda vigente na maioria dos países, de confrontação direta e inflexibilidade diante da produção, comercialização e consumo.
Pacotes de cocaína apreendidos nos Estados Unidos. Nos últimos 50 anos, a política de combate às drogas foi pautada pela repressão severa à produção, ao tráfico e ao consumo (foto: DEA).
Essa política se originou de três convenções da Organização das Nações Unidas (ONU) realizadas em 1961, em Nova York, em 1971 e em 1988, ambas em Viena. Essas reuniões listaram as substâncias que deveriam ser fiscalizadas e recomendaram medidas de controle da produção, comercialização e uso. Mais importante que isso: definiram uma política conhecida como “Guerra às Drogas”, aplicada desde então na maioria dos países, inclusive o Brasil.
A questão inicial da comissão brasileira que acaba de se formar é a seguinte: essa política deu certo?
O mundo das drogas
Acredita-se que mais de 200 milhões de pessoas no mundo utilizem algum tipo de droga ilícita pelo menos uma vez a cada ano. Esse número sobe vertiginosamente se considerarmos também drogas lícitas como álcool e tabaco. Nesse caso, pode-se dizer que praticamente toda a humanidade consome drogas psicoativas! (...)
Segundo a Comissão Latino-americana sobre Drogas e Democracia, antecessora da nossa, a América Latina é o maior exportador mundial de cocaína e maconha. Três países desse continente – Colômbia, Peru e Bolívia – produzem toda a cocaína consumida no mundo. Além disso, já produzimos por aqui ópio e heroína em volume considerável, e começamos a produzir drogas sintéticas. Além disso, o consumo de drogas na América Latina está em expansão, ao contrário do que ocorre na Europa e nos Estados Unidos, onde atingiu um padrão estável.
O crescimento da produção e do consumo em nosso continente veio acompanhado e vinculado a um aumento do crime organizado dedicado ao tráfico internacional e ao controle dos mercados nacionais. O fenômeno levou a um crescimento da violência, que todos vivemos, bem como à criminalização da política e à politização do crime.
A guerra às drogas
Como avaliar a política de repressão sem trégua que vigora em todo o mundo há 50 anos? O mínimo que se pode dizer é que não deu certo. (...)
(...) No Brasil, o tráfico de armas e drogas domina as demais atividades criminosas em praticamente todas as regiões metropolitanas, o que resulta no controle de vastos territórios urbanos onde o Estado não penetra (favelas e comunidades pobres), altos níveis de corrupção de políticos, líderes sociais e autoridades de segurança pública, altas taxas de homicídios e, portanto, uma extrema insegurança das instituições e dos cidadãos. Uma forte ameaça à democracia.
A nova política: redução de danos
A avaliação negativa da política de guerra às drogas tem levado à proposição de uma nova política, conhecida como “redução de danos”. Isso significa abandonarmos – por ilusória e impossível – a perspectiva de eliminar as drogas da face da Terra. As drogas, lícitas ou ilícitas, têm sido uma prática da humanidade desde sempre ao longo da história, e tudo indica que continuará assim. Seu consumo é uma prática cultural fortemente enraizada em todos os continentes. Socialmente falando, não há como viver sem elas. O que é preciso é reduzir os danos que provocam à saúde.
Essa talvez seja a palavra mágica: saúde. Ao deslocarmos o foco do crime para a saúde, consideraremos os usuários leves e recreativos como indivíduos que devem ser alvo de políticas educacionais para que não se excedam no consumo, para prevenir os danos. Em segundo lugar, o consumo de drogas como questão de saúde pública implica orientar os dependentes para tratamento, e não para a prisão. Por fim, as penas da lei para os traficantes.
Excelentes resultados, nessa perspectiva, foram obtidos pelo Brasil no caso do consumo de tabaco. A publicidade das empresas fabricantes de cigarros foi controlada, e uma campanha educacional de advertência de riscos foi lançada há menos de dez anos pelo Ministério da Saúde.
Mais recentemente, a proibição do fumo em locais públicos acentuou ainda mais a campanha, agora focando na redução de danos dos fumantes passivos. O resultado é que o consumo de cigarros caiu vertiginosamente no país. É de se prever que uma política semelhante seja feita nos próximos anos com relação ao consumo de álcool.
No caso das drogas ilícitas, o problema é mais complicado, porque a mudança de foco implica despenalizar (diminuir as penas da lei) ou descriminalizar (tornar legal) o consumo e o porte de pequenas quantidades, concentrando a repressão nos traficantes. A dificuldade é que ainda não há consenso em diversos setores da opinião pública de que esse caminho é o único com chance de sucesso.
Com a nova política, o usuário é alvo de políticas de saúde e prevenção, e apenas o produtor e o traficante se tornam alvo da polícia.
A contribuição da neurociência
Em que medida pode a neurociência contribuir com esse processo? Os farmacologistas há muito se dedicam a desvendar os mecanismos de ação e dependência das drogas psicoativas e a desenvolver alternativas terapêuticas. Há muito se sabe que a morfina tem análogos naturais produzidos por nosso próprio organismo – as chamadas endorfinas, peptídeos que participam de mecanismos analgésicos endógenos.
Além disso, comentei na coluna de junho a descoberta de um grupo de farmacologistas de São Paulo de que o cérebro produz também moléculas análogas à maconha (endocanabinoides). Ambos – endorfinas e endocanabinoides – são proteínas receptoras que muitas de nossas células produzem, capazes de reconhecer a morfina e o tetra-hidrocanabinol, principal componente ativo da maconha.
Os mecanismos moleculares e celulares subjacentes aos efeitos positivos e negativos do uso das diferentes drogas, bem como da dependência que muitas provocam, também são bem conhecidos dos farmacologistas, sendo operantes em certos locais do cérebro, nos pontos em que os neurônios se aproximam para trocar informações. Essa história é longa, e pretendo comentá-la em outro momento proximamente.
Quero abordar aqui um outro tipo de contribuição dos neurocientistas na implementação de novas políticas de redução de danos das drogas de abuso. É o caso do estudo realizado recentemente pelo grupo multidisciplinar liderado por Eliane Volchan, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em trabalho conjunto com o Instituto Nacional do Câncer (Inca) e a Universidade Federal Fluminense (UFF).
O grupo analisou o efeito neuropsicológico das fotografias de impacto negativo que passaram a ser impressas nos maços de cigarros comercializados no Brasil, empregando ferramentas psicométricas utilizadas em estudos sobre a emoção e o comportamento humano.
(...) Os resultados obtidos pelo grupo fluminense permitiram classificar as imagens apresentadas nos maços de cigarros, comprovar sua eficácia na produção de emoções negativas e validar sua utilização nas campanhas de prevenção.
Novas advertências sanitárias para controle do tabagismo. As imagens foram desenvolvidas com embasamento neurocientífico para gerar um alto grau de repulsa.
Também é digno de nota observar que as indústrias de produção de cigarros utilizavam imagens de caráter oposto – de valência positiva – para atrair consumidores. Quem não lembra do caubói de Marlboro?
Os resultados da campanha educacional de controle do tabagismo, associados às medidas de proibição da publicidade de cigarros e, mais recentemente, às leis que proíbem seu consumo em lugares públicos fechados, certamente são inspiradores para uma política de redução de danos que possa ser também empregada para o álcool – outra droga lícita de alto prejuízo social.
Mais complexo é o problema das drogas ilícitas, mas o caminho parece ser esse: redução de danos em substituição à repressão cega a usuários e traficantes.. "
Robeto Lent, Coluna Cem Bilhões de Neurônios, Ciência Hoje, 28/08/2009
http://cienciahoje.uol.com.br/152021